A candidatura do psiquiatra Augusto Cury à Presidência do Brasil, oficializada pelo partido Avante em convenção nacional no dia 3 de agosto de 2026, trouxe para o centro do debate eleitoral um tema historicamente negligenciado: a saúde mental da população brasileira. Com o primeiro debate presidencial marcado para 23 de agosto e o deputado federal Júlio Delgado (Avante-MG) confirmado como vice, as propostas de Cury — que incluem programas de gestão emocional nas escolas públicas e expansão dos serviços de psiquiatria e psicologia no SUS — colocam em evidência uma crise que os números já revelavam há anos, mas que raramente chegava às urnas.
O Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade: o retrato em números
O Brasil não é apenas um país com problemas de saúde mental — é, segundo a Organização Mundial da Saúde, o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do planeta: 9,3% da população é afetada, o equivalente a 18 milhões de pessoas. Os dados do inquérito Covitel 2023 aprofundam o retrato: 12,7% dos brasileiros convivem com depressão e 26,8% relatam sofrer de ansiedade no cotidiano.
As desigualdades de gênero são marcantes. Entre as mulheres, 18,1% receberam diagnóstico de depressão e 34,2%, de ansiedade — taxas quase três vezes superiores às dos homens (6,9% e 18,9%, respectivamente). No mercado de trabalho, o impacto já se traduz em absenteísmo de proporções históricas: em 2024, quase 500 mil afastamentos foram motivados por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social. Trata-se do maior número registrado em pelo menos uma década, com crescimento de 68% em relação ao ano anterior. No SUS, de janeiro a outubro do mesmo ano, foram realizados 671.305 atendimentos ambulatoriais por ansiedade — alta de 14,3% em relação a todo o período anterior.
É nesse contexto que o Ministério da Saúde iniciou, em março de 2026, a coleta de dados da Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) — o primeiro grande levantamento de base populacional dedicado exclusivamente ao tema no país, segundo o próprio governo federal.
O que a proposta de Cury revela sobre o acesso ao cuidado
A plataforma de Augusto Cury se apoia em duas frentes complementares: prevenção pela educação emocional e tratamento pela expansão do acesso público. Ele propõe a implementação de programas nacionais de gestão emocional nas escolas públicas, a formação de professores para identificar dificuldades emocionais em alunos, e o fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) — que, até novembro de 2024, somavam 3.019 unidades em funcionamento no país.
A entrada de um psiquiatra renomado na arena política gera um efeito imediato: levar o debate sobre saúde mental a espaços onde ele raramente aparecia. Mas também expõe uma tensão real: a distância entre a consciência coletiva sobre o tema e o cuidado individual concreto. Campanhas eleitorais criam visibilidade; não substituem a avaliação clínica de um especialista. E essa distinção é fundamental — especialmente para os milhões de brasileiros que ainda não sabem ao certo quando sua dificuldade emocional deixou de ser "estresse normal" e passou a merecer atenção profissional.
Psicólogo ou psiquiatra? A dúvida que atrasa o tratamento no Brasil
Um dos maiores obstáculos ao cuidado em saúde mental no Brasil não é apenas o acesso — é a falta de clareza sobre qual profissional procurar. A confusão entre psicólogo e psiquiatra é frequente e pode atrasar meses o início de um tratamento adequado.
A distinção é objetiva. O psicólogo é formado em psicologia e atua principalmente com psicoterapia — a intervenção comportamental, cognitiva ou psicodinâmica. O psiquiatra é médico especializado em saúde mental e pode, além de conduzir psicoterapia, prescrever medicamentos e solicitar exames. Para casos de depressão leve a moderada ou ansiedade generalizada sem componente orgânico suspeito, o psicólogo pode ser o primeiro ponto de contato. Quando há risco de automutilação, episódios de pânico recorrentes, suspeita de transtorno bipolar ou do espectro autista, ou quando a gravidade dos sintomas impede a rotina básica, o caminho correto é o psiquiatra — e quanto antes, melhor.
Segundo estimativas da literatura clínica, o brasileiro leva em média de 8 a 10 anos entre o surgimento dos primeiros sintomas de um transtorno de ansiedade e a busca por ajuda especializada. Esse atraso não é apenas sofrimento evitável — é custo econômico, social e familiar acumulado.
Caso concreto: quando a exaustão emocional vira diagnóstico clínico
Considere a situação de Ricardo, 37 anos, analista de sistemas em Curitiba. Desde o início de 2026, ele acorda regularmente às 3h da manhã com o coração acelerado e pensamentos em espiral sobre o trabalho. Nas últimas 20 semanas, faltou 14 dias ao emprego por causa de crises que atribuía a "pressão do projeto". Em dois momentos, o chefe questionou sua performance. Ricardo não procurou ajuda porque julgava que "todo mundo estava assim".
Aplicando os critérios clínicos do DSM-5: sintomas persistindo por mais de 6 meses, comprometimento funcional no trabalho (14 ausências = cerca de 12% do período), sofrimento subjetivo significativo e ausência de outra causa médica identificada. Esses elementos configuram Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) — não estresse ocupacional pontual.
Se Ricardo tivesse procurado um psiquiatra após o segundo mês de sintomas, a avaliação teria definido três caminhos: (1) se havia indicação de medicação ansiolítica ou antidepressiva para estabilizar o quadro rapidamente, reduzindo o risco de cronificação; (2) qual modalidade de psicoterapia seria mais eficaz para seu perfil — TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) tem eficácia comprovada para TAG, com melhora em 60 a 70% dos casos quando iniciada dentro dos primeiros seis meses; e (3) se os sintomas tinham componente orgânico associado, como hipertireoidismo ou deficiência de vitamina D — condições que apenas o médico pode descartar com exame. O atraso de 20 semanas, no caso de Ricardo, triplicou a probabilidade de o quadro se cronificar — e transformou um eventual episódio tratável em um problema que agora afeta sua carreira.
Esse cenário representa a realidade de centenas de milhares de brasileiros. Os quase 500 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024 não são abstrações — são Ricardos que esperaram tempo demais.
O que fazer agora: sinais de que chegou a hora de consultar um especialista
A candidatura de Augusto Cury coloca saúde mental nos debates presidenciais — e isso tem valor simbólico e político real. Mas, independentemente do resultado das eleições de outubro, a decisão de buscar ajuda profissional é individual, e ela não precisa esperar por uma política pública.
Considere marcar uma consulta com um psicólogo ou psiquiatra se você identificar três ou mais dos seguintes sinais nas últimas quatro semanas:
- Insônia ou hipersonia persistente (mais de três vezes por semana)
- Dificuldade de concentração que afeta o desempenho no trabalho ou nos estudos
- Sentimentos frequentes de inutilidade, culpa excessiva ou tristeza sem causa aparente
- Crises de ansiedade ou pânico recorrentes
- Isolamento social progressivo ou perda de interesse em atividades antes prazerosas
- Uso aumentado de álcool, medicamentos ou outras substâncias para aliviar o desconforto emocional
- Pensamentos recorrentes de autolesão ou de que seria melhor não estar aqui
No SUS, o ponto de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, que pode encaminhar ao CAPS quando necessário. Na rede privada e em plataformas como o Expert Zoom, é possível agendar consultas com psiquiatras e psicólogos online, com disponibilidade em dias úteis e fins de semana, sem necessidade de encaminhamento. Para informações sobre os serviços oficiais do SUS em saúde mental, o Ministério da Saúde mantém página atualizada com os recursos disponíveis.
Quando Cury fala em "gestão emocional" como proposta de governo, ele está codificando em política pública aquilo que qualquer psiquiatra já pratica no consultório: emoções não gerenciadas têm custo — pessoal, profissional e econômico. O Brasil já soma quase 500 mil afastamentos anuais por transtornos mentais. O debate presidencial começa no dia 23 de agosto. A sua consulta pode começar muito antes disso.
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Em situação de crise, ligue 188 (CVV — Centro de Valorização da Vida), disponível 24 horas.

Gabriel Alves