Na segunda roça de A Fazenda 18, em 1º de outubro de 2026, a enquete parcial do UOL mostrava Daniel Erthal na frente, com 45,02% dos votos para permanecer, e Adryana Ribeiro em segundo, com 31,2%. A votação oficial da Record, porém, eliminou Adryana, que recebeu apenas 8,59% dos votos do público. A distância entre os dois números reacendeu a pergunta que volta a cada temporada: dá para confiar em enquetes e votações online, e o que um especialista em segurança digital diria sobre elas?
O que os números da roça realmente mostram
Os dados vêm das próprias coberturas da temporada. Segundo o jornal O Povo, as enquetes parciais do UOL davam Daniel Erthal com 45,02%, Adryana Ribeiro com 31,2% e Maíra Charken com 23,78%. Na votação oficial, de acordo com a mesma cobertura, Adryana saiu com 8,59% dos votos para ficar.
Há dois pontos a observar. O primeiro é que, no reality da Record, o voto é para quem fica: a pessoa menos votada é eliminada. O segundo é que enquetes de portais como UOL e NSC Total funcionam como termômetro e não decidem nada. Quem vota nelas é um público autosselecionado, formado por quem tem interesse em um participante e acesso ao site naquele momento.
Em outras palavras, a enquete mede mobilização de torcida e não a opinião do conjunto de espectadores. Uma torcida organizada pode vencer uma enquete aberta sem representar a maioria. Por isso a diferença entre 31,2% e 8,59% não prova fraude. Prova, no mínimo, que as duas medições respondem a perguntas diferentes.
Robôs, fazendas de cliques e o que já foi denunciado
Em 2020, circulou um vídeo que mostrava fãs de um participante usando robôs para votar na roça de A Fazenda. Segundo a cobertura do DCI, a Record leu uma nota no ar afirmando que o sistema tem proteção contra votos automatizados e contra padrões anormais de votação.
Em outras edições de reality shows, como o BBB, houve suspeitas semelhantes. A emissora responsável negou indícios de fraude e afirmou que sua plataforma passa por auditoria externa independente, e especialistas em cibersegurança ouvidos pela imprensa consideraram a fraude pouco provável. Não encontrei, nas fontes consultadas, comprovação independente de manipulação em A Fazenda 18.
Convém distinguir dois mecanismos. Bots são programas que automatizam ações e tentam imitar usuários humanos. Já as chamadas fazendas de cliques, explicadas pelo Olhar Digital, usam contas e pessoas reais, pagas para repetir ações, e por isso são mais difíceis de detectar. Em enquetes de portais, sem a mesma barreira de cadastro da votação oficial, ambos os recursos podem distorcer o resultado.
O risco que atinge o espectador: golpes de "votos extras"
O maior problema para quem assiste ao programa não está na eleição em si, e sim nos golpes que surgem em volta dela. A cada roça, aparecem mensagens e anúncios prometendo "pacotes de votos", "votação garantida" ou links "oficiais" para ajudar o peão favorito. O padrão é conhecido da engenharia social: urgência, uma causa emocional e um pedido de dados.
Um especialista em segurança da informação costuma listar três sinais de alerta. O primeiro é um link recebido por WhatsApp ou rede social que não pertence ao domínio do canal oficial. O segundo é qualquer cobrança para votar, já que a votação oficial é gratuita. O terceiro é o pedido de CPF, dados de cartão ou código de verificação para "validar o voto".
Segundo a Cartilha de Segurança para a Internet, mantida pelo CERT.br, desconfiar de mensagens que criam senso de urgência e conferir o endereço do site antes de informar dados pessoais estão entre as práticas básicas contra phishing. A orientação vale para qualquer link de votação, inclusive os que parecem vir de amigos, porque contas de conhecidos também são invadidas.
Um caso concreto: o "pacote de 100 votos" por R$ 19,90
Imagine Carla, de 27 anos, moradora de Goiânia, torcedora de um participante que está na roça. Na noite de uma eliminação, ela recebe no WhatsApp, de um grupo de fãs, a mensagem: "Pacote de 100 votos por R$ 19,90, pague agora e garanta a permanência". O link leva a uma página que imita o visual do programa e pede nome, CPF, número do cartão e o código de segurança.
Aplicando a lógica de risco, o cenário se divide em dois caminhos. Se Carla paga e informa os dados do cartão, o prejuízo não se limita aos R$ 19,90: com os dados completos, o golpista pode tentar compras de valor muito maior, até o limite do cartão. Num cartão com limite de R$ 3.000, esse é o teto da exposição, além do trabalho de contestar cobranças e trocar o cartão. Além disso, nenhum voto será computado, porque a votação oficial não vende votos.
Se, ao contrário, Carla confere o endereço, percebe que o domínio não é o do portal oficial e não informa nada, a perda é zero. Se ela já tiver digitado os dados, a sequência recomendada por especialistas é bloquear o cartão no aplicativo do banco em minutos, contestar qualquer compra desconhecida, trocar senhas reutilizadas e ativar a verificação em duas etapas. Quanto mais cedo o bloqueio, menor a chance de a fraude se consolidar.
O exemplo é hipotético, mas retrata um tipo de golpe recorrente em períodos de grande audiência. O valor baixo do "pacote" é proposital: ele reduz a desconfiança e serve de isca para obter os dados do cartão.
O que dizer sobre privacidade e dados pessoais
Todo cadastro em enquete, sorteio ou votação reúne dados: e-mail, telefone, às vezes CPF. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) garante ao titular o direito de saber como esses dados são usados, e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) é o órgão responsável por orientar e fiscalizar o tema. Antes de se cadastrar em um site de enquete desconhecido, vale ler a política de privacidade e perguntar se o cadastro é realmente necessário para votar.
Quem acha que seus dados foram usados indevidamente pode registrar a ocorrência junto ao controlador do site e, se não houver resposta, recorrer à ANPD.
Como votar e acompanhar com segurança
Algumas práticas simples reduzem o risco, sem depender de conhecimento técnico:
- acesse a votação oficial digitando o endereço do canal ou pelo aplicativo, e não por links recebidos em mensagens;
- desconfie de qualquer cobrança para votar, porque voto pago não existe na votação oficial;
- use senhas diferentes para cada serviço e ative a verificação em duas etapas nas contas de e-mail e de redes sociais;
- trate enquetes de portais como entretenimento: elas medem a torcida de quem participa, não a decisão do público;
- avise o grupo quando identificar um link suspeito, já que a propagação em grupos de fãs é o principal canal desses golpes.
Quando procurar um especialista
Se você caiu em um golpe de votação, teve a conta invadida ou suspeita de vazamento de dados, um profissional de tecnologia da informação pode ajudar a revisar dispositivos, trocar credenciais comprometidas e reforçar a segurança das suas contas. Para empresas e criadores de conteúdo que organizam enquetes com seus seguidores, um consultor também pode orientar sobre coleta de dados e conformidade com a LGPD.
No ExpertZoom, você encontra especialistas em Tecnologia da Informação para tirar dúvidas sobre segurança digital, proteção de contas e uso responsável de dados, antes que o próximo link "de votação" chegue ao seu celular.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional qualificado. Para conhecer as boas práticas de segurança, consulte a Cartilha de Segurança para a Internet do CERT.br.

Juliana Lima