O ator Alexandre Borges retorna ao horário nobre da TV Globo em "Quem Ama Cuida" — novela que estreou em 18 de maio de 2026 — vivendo um dos personagens mais complexos da trama: Ulisses, um homem que mantém uma fachada impecável de sucesso enquanto, nos bastidores, é dominado por um vício em jogo que arrasta sua família para um espiral financeiro e emocional.
"Ulisses é um homem contraditório: ama a família, tem dois filhos, é casado com uma mulher bonita — mas tem um problema sério de jogo", declarou Alexandre Borges ao portal Metrópoles. O personagem reflete uma realidade que cresce silenciosamente no Brasil de 2026: o jogo patológico, também chamado de ludopatia, é um transtorno de saúde mental reconhecido oficialmente e que afeta cada vez mais brasileiros, especialmente com a explosão das apostas online.
O que é jogo patológico — e por que ele não é "fraqueza de caráter"
O jogo patológico (ou transtorno do jogo, segundo o DSM-5) é uma condição clínica reconhecida pela psiquiatria e psicologia como um transtorno de controle de impulsos. Não se trata de falta de força de vontade ou escolha consciente de autodestruição.
Estudos de neuroimagem mostram que as áreas cerebrais ativadas durante o comportamento compulsivo de jogar são as mesmas ativadas em dependentes de cocaína e álcool durante o uso de substâncias. Para o cérebro, os dois tipos de vício têm mecanismos idênticos de recompensa e privação — e exigem abordagens de tratamento igualmente especializadas.
Os principais sinais de alerta incluem:
- Dificuldade em parar de jogar mesmo após perdas expressivas
- Mentiras para familiares sobre o valor gasto em apostas
- Uso de dinheiro destinado a contas ou alimentação para jogar
- Empréstimos ou venda de bens para continuar jogando
- Sensação de euforia apenas ao jogar e depressão nos períodos de abstinência
- Isolamento social e irritabilidade quando não está apostando
O cenário brasileiro em 2026: bets e o vício que cresce nas telas
A explosão das plataformas de apostas online no Brasil — popularmente chamadas de "bets" — criou um ambiente sem precedentes de exposição ao jogo. Diferente dos cassinos físicos que exigem deslocamento, as bets estão disponíveis 24 horas por dia no celular, com notificações constantes, bônus de entrada e mecânicas de design que exploram os mesmos princípios usados por máquinas caça-níqueis.
A combinação de acessibilidade digital, marketing agressivo e inexperiência com o risco financeiro criou uma nova geração de jogadores compulsivos — muitos deles jovens que nunca tinham apostado antes de 2023. O personagem Ulisses, de "Quem Ama Cuida", representa esse padrão: a aparência de vida estruturada esconde uma dependência que consome o patrimônio e a autoestima de dentro para fora.
Como funciona o tratamento para jogo patológico
O tratamento eficaz para o jogo patológico é multidisciplinar e inclui:
Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC): É a abordagem com maior evidência científica para o transtorno. O trabalho terapêutico foca em identificar e reestruturar os pensamentos distorcidos sobre o jogo (como a "falácia do apostador" — a crença de que uma sequência de perdas inevitavelmente precede uma grande vitória), desenvolver habilidades de regulação emocional e construir estratégias de prevenção de recaída.
Psiquiatria: Em casos de comorbidades — depressão, ansiedade ou TDAH frequentemente coexistem com o jogo patológico — a avaliação e eventual medicação por um psiquiatra são parte fundamental do tratamento.
Grupos de Apoio (Jogadores Anônimos): O modelo dos 12 passos, adaptado para o jogo, oferece suporte coletivo e reduz o isolamento que caracteriza o vício. Estudos indicam que a combinação de psicoterapia com grupos de apoio tem resultados superiores à psicoterapia isolada.
Intervenção familiar: O vício em jogo é frequentemente chamado de "doença familiar" porque seus efeitos atingem todos ao redor do jogador. A terapia familiar ajuda cônjuges e filhos a estabelecer limites saudáveis sem habilitar o comportamento compulsivo.
As consequências financeiras que a novela não mostra completamente
O roteiro de "Quem Ama Cuida" captura a tensão emocional do jogo patológico, mas os números reais são ainda mais impactantes. Estimativas de especialistas em saúde financeira indicam que um jogador compulsivo no Brasil pode perder entre R$ 2.000 e R$ 15.000 por mês em apostas, dependendo da plataforma e dos limites de crédito disponíveis.
Além das perdas diretas, há custos indiretos: o jogador patológico frequentemente pede empréstimos a familiares (que raramente são devolvidos), atrasa ou deixa de pagar contas essenciais, e pode contrair empréstimos com juros abusivos para financiar o vício. O resultado é um ciclo de endividamento progressivo que fica cada vez mais difícil de reverter sem intervenção especializada.
Quando procurar ajuda?
A busca por ajuda profissional frequentemente acontece tarde — quando as dívidas já se acumularam, os relacionamentos estão deteriorados e o jogador chegou a um ponto de crise. Idealmente, os sinais de alerta listados acima já justificam uma consulta com um psicólogo ou psiquiatra.
No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconhecem o jogo patológico como condição clínica tratável. A procura por um especialista em saúde mental habilitado é o caminho mais eficiente.
Outros recursos:
- Jogadores Anônimos Brasil: grupos presenciais e online em todo o país
- CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): atendimento gratuito pelo SUS para transtornos por uso de substâncias e comportamentais
- CVV (Centro de Valorização da Vida): 188, disponível 24h
A ficção de Alexandre Borges em "Quem Ama Cuida" mostra, com dramaticidade, o que o jogo patológico faz com famílias reais. Ulisses perde controle aos poucos, sem perceber — ou sem querer perceber. No mundo real, o roteiro não precisa terminar em colapso: com ajuda especializada, a recuperação é possível.
Nota: Este artigo tem caráter informativo. Se você ou alguém próximo apresenta sinais de jogo patológico, busque orientação com um psicólogo ou psiquiatra especializado.
Fonte oficial: Conselho Federal de Psicologia (CFP) — Reconhecimento profissional e saúde mental
